SINOPSE DAS ORIENTAÇÕES CLINICAS (SEGUNDO: ESCMID, ECMM)
PARA DIAGNÓSTICO E ABORDAGEM DAS MUCORMICOSES
Mucormicoses (antes zigomicoses) são infecções fúngicas
invasivas muito graves que necessitam terapêutica urgente. A taxa de
mortalidade permanece entre 24 e 49%.
As mucormicoses são provocadas por um conjunto de diferentes
géneros de fungos, Ordem dos mucorales, que se caracterizam por apresentarem, à
microscopia, hifas não septadas ou pouco septadas. Este grupo compreende os
géneros Rhizopus, Mucor, Lichtheimia (Absidia), Cunninghamella (associada a
mortalidade elevada), Rhizomucor, Aphophysomyces e Saksenaea.
Factores predisponentes à ocorrência de mucormicoses são: granulocitopenia,
imunossupressão, diabetes e inoculação traumática.
Diagnostico laboratorial
Exame directo da
amostra para pesquisa de hifas características usando marcadores fluorescentes
específicos de fungos (calcofluor) permite um diagnóstico presuntivo já que se
baseia na ausência ou escassez de septos da hifa, na forma da hifa (fita
irregular de paredes lisas) e no ângulo (90 o) formado pela
bifurcação das hifas.
Amostra obtida por punção guiada
por TAC ou intra–cirúrgica apresentam 5 % de falsos negativos
A cultura das
amostras, em meios apropriados e temperaturas próprias, é essencial já que
permite identificação do género e espécie bem como a execução de testes de
sensibilidade.
Os fungos crescem bem, e em
poucos dias, tanto em meios selectivos como nos não selectivos. A temperatura
de incubação deve ser 37 oC. O manuseamento demasiado agressivo
(maceração) da peça de biópsia pode corromper a estrutura do fungo tornando-o
inviável para cultura.
O exame histológico
permite a visualização de hifas e porventura
diferenciá-las das hifas dos Aspergillus. Histologicamente poderão ocorre
enfartes, angioinvasão e invasão
peri-neural.
Cerca de 65% das histologias são
positivas. Nos neutropénicos a angioinvasão é maior.
Detecção de
antigénios: não existe nenhum ensaio analítico específico.
O beta-glucan é negativo nos mucorales.
O galactomanan muitas vezes é negativo (sobretudo com
tratamento prévio por caspofungina).
É possível, por teste de imunoensaio, detectar células T
especificas de mucorales mas apenas durante o curso da doença, desaparecem logo
após resolução da infecção.
Detecção directa por
testes moleculares (vulgo PCR):
Actualmente não existe nenhum método validado . Os resultados
obtidos tanto para material de biopsia (melhores resultados aqui) como para
cortes histológicos de biopsia incluído em parafina são promissores
A identificação de
género/espécie
Não há evidência que a correcta identificação de género e
espécie conduza a uma terapêutica mais adequada. A identificação é importante
para epidemiologia e é sempre preferível ser feita com base molecular, a
identificação fenotípica é muito difícil.
O uso do kit ID32 C poderá dar um contributo valioso e a
técnica MALDI-TOFF poderá ser uma ferramenta poderosa num futuro próximo.
Testes de
susceptibilidade
Actualmente não existem, para nenhum antifungico,
concentrações mínimas inibitórias aprovadas para os mucorales pelo que é
impossível classificá-los como S, R ou I.
A metodologia de referência actual são os testes de
microdiluição descritos pelo EUCAST e pelo CLSI.
Os métodos E-test e XTT estão ainda por validar.
Sem actividade in vitro contra mucorales: Fluconazol,
Voriconazol, equinocandinas e flucitosina.
Amfotericina B e posoconazol são as drogas mais activas. O
itraconazol também revela CMI baixas.
Imagiologia
O sinal do halo (opacidade em vidro fosco rodeando área
densa de infiltrado nodular) e o sinal do crescente aéreo em Rx torácico não
são indicativos da identidade do fungo.
Estes sinais bem como o sinal do halo invertido (atol) têm
um valor diagnóstico directamente proporcional à probabilidade pré-teste de ser
uma mucormicose.
Biopsia orientada por tomografia deve ser realizada sempre
que suspeita de mucormicose pulmonar, as plaquetas devem ser > 50 000uL com
ou sem transfusão de plaquetas. Em hemato-oncologia a mucormicose é disseminada em 20% dos casos, sendo frequente o envolvimento craniano, torácico e
abdominal.
objectivo
|
|||
diagnóstico
|
Ex directo amostra (calcofluor)
|
A
|
II
|
diagnóstico
|
Cultura microbiológica
|
A
|
III
|
diagnóstico
|
Histopatologia
|
A
|
II
|
diagnóstico
|
Galactomannan
|
B
|
III
|
diagnóstico
|
b-glucan
|
D
|
III
|
diagnóstico
|
Testes. moleculares
PCR
|
C
|
II
|
diagnóstico
|
PCR em peça histológica
|
C
|
II
|
objectivo
|
Id do germen
|
||
Orientação terapêutica
|
Identificação até ao género
|
C
|
II
|
epidemiologia
|
Identificação até à espécie
|
A
|
II
|
epidemiologia
|
Identificação molecular - PCR
|
A
|
II
|
epidemiologia
|
MALDI-TOFF
|
C
|
II
|
objectivo
|
Susceptibilidade Antifungicos
|
||
Orientação terapêutica
|
Microdiluições CLS/EUCAST
|
C
|
II
|
Orientação terapêutica
|
Correlação CIM
com resultado in vivo
|
C
|
II
|
epidemiologia
|
T Susceptibilidade Antifungicos
|
A
|
II
|
objectivo
|
imagiologia
|
||
Hematoncologia
d.diferencial aspergilose pulmonar invasiva/mucormicose
|
TAC - Sinal halo
reverso
|
B
|
II
|
TAC - Derrame
pleural
|
C
|
II
|
|
TAC - >10 nódulos
|
C
|
II
|
|
Hematoncologia
Avaliar extensão
|
TAC craniana, seios, torácica e abdominal
|
B
|
III
|
Diabetes com sinusite
|
TAC craniana
|
A
|
II
|
Lesão óssea
|
Ressonância magnética
|
A
|
II
|
CONSIDERAÇÕES SOBRE TERAPÊUTICA
Profilaxia
Em períodos de alto risco (neutropenia prolongada em leucemia
mieloide aguda e em doença enxerto vs hospedeiro com imunossupressão), a
profilaxia com posaconazol reduz a incidência de mucormicoses. (C III)
Em imunodeficientes com mucormicose prévia, a profilaxia
associada à recessão cirúrgica é eficaz no aparecimento de recorrências. (A
III)
Terapêutica (por quadro febril)
Não sustentada cientificamente.
Terapêutica após evidência microbiológica
A recessão cirúrgica da massa pulmonar comprometida (mucor)
conduz a uma diminuição de 11 a
62% na mortalidade. (A II)
A recessão cirúrgica da massa pulmonar comprometida (mucor)
associada a terapêutica antifungica conduz a uma diminuição de 11 a 62% na mortalidade e a
uma possível cura definitiva. (A II)
Nos imunodeficientes a precocidade do tratamento aumenta a
taxa de sobrevida (A II)
A amfotericina B lipossomica aumenta a taxa de cura e a
sobrevida (A II)
Na infecção do SNC recomenda-se Amfotericina B lipossomica
(A II)
A amfotericina B complexo lipídico e o posaconazol aumenta a
taxa de cura (B II)
A associação amfotericina lipossomica e caspofungina aumenta
a taxa de cura (C III)
Amfotericina desoxicolato aumenta a taxa de cura (D I)
Terapêutica de último recurso
Se a infecção for refractária à terapêutica e/ou houver
intolerância aos anti-fúngicos de primeira linha
Posaconazol
(A II)
Amfotericina
lipossómica (A II)
Amfotericina
complexo-lipidico (A II)
Polieno
mais caspofungina (C
III)
Caspofungina
mais posocanazol (B II)
Infecção em crianças
As mucormicoses em crianças imunodeprimidas e em prematuros
são infecções muito graves. Nos prematuros a infecção manifesta-se por
alterações gastro-intestinais ou cutâneas. Nas crianças e adolescentes a
apresentação mais frequente é pulmonar ou rino-orbito-cerebral. A taxa de
mortalidade é de 64% nos prematurose de 42 a 56% nas crianças.
Em geral, as recomendações são as mesmas das dos adultos, há
contudo variáveis farmacocinéticas e farmacodinâmicas referentes às características fisiológicos dos jovens.
Sem comentários:
Enviar um comentário